Jun 6, 2014

Aldo Leopold “ Pensar como uma montanha ”







“ Este é um pequeno episódio do funeral da flora nativa, o qual por sua vez é um episódio do funeral das floras de todo o Mundo. O Homem mecanizado, esquecido das floras, orgulha-se do progresso realizado na limpeza da paisagem na qual, quer queira quer não, tem que viver os seus dias.

Assim acaba por supor-se que as regiões rurais são tanto melhores quanto mais pobres forem as respectivas floras.
(…)


De Abril a Setembro, em média dez plantas silvestres por semana abrem as suas primeiras flores. Em Junho, num único dia podem florescer uma dúzia de espécies. 

(…)
Todos os anos em Julho observo com profundo interesse um certo cemitério rural por onde passo ao conduzir rumo à minha quinta e ao regressar dela. È época de aniversário na pradaria, e ,num dos cantos desse cemitério, há ainda um sobrevivente que continua a celebrar esse outrora importante acontecimento.
É um cemitério vulgar, bordejado pelos habituais abetos e salpicado das habituais lápides funerárias de granito rosa ou mármore branco, cada qual com o habitual ramo domingueiro de gerânios vermelhos ou rosa. Tem de extraordinário apenas ser triangular em vez de quadrado e abrigar no interior do agudo ângulo da sua cerca um minúsculo vestígio da pradaria nativa em que o cemitério foi instalado nos anos de 1840. Sem que até ao momento foice ou ceifeira a atingisse, nesta relíquia de um metro quadrado do Wisconsin original nasce, todos os anos em Julho, o caule da altura de um homem de uma «planta bússola», ou Silphium, lantejoulada de flores amarelas do tamanho de um pires, que se assemelham às flores de girassol. É o único exemplar sobrevivente desta planta ao longo de toda a estrada, e talvez o único sobrevivente na metade Oeste da nossa circunscrição. Que aspecto teriam quinhentos hectares de Silphium quando faziam cócegas no ventre dos bisontes é uma pergunta que jamais poderá ser respondida, e talvez sequer formulada. (…)
Ao passar de novo pelo cemitério a 3 de Agosto, a cerca tinha sido retirada por uma equipa de cantoneiros, e o Silphium cortado. É fácil agora prever o Futuro; durante alguns anos, o meu Silphium tentará em vão erguer-se acima da máquina de cortar erva, e depois morrerá. Com ele terá morrido a era da pradaria.
A junta das estradas diz que passam 100 mil carros nesta estrada durante os três meses de Verão, quando o Silphium está em flor. Neles devem viajar pelo menos 100 mil pessoas que “tiveram aulas” de uma coisa chamada História, e talvez 25 mil que “tiveram aulas” de uma coisa chamada Botânica. E no entanto duvido se uma dúzia sequer terão visto o Silphium, e dessas talvez nem uma se tenha dado conta da sua morte.  Se eu fosse dizer a um pregador da Igreja que a equipa de cantoneiros esteve a queimar livros de história no seu cemitério, a pretexto de mondar ervas adventícias, era ficaria espantado e perplexo. Como é que uma erva daninha poderia ser um livro?
 (…)

Ninguém pensa de momento em observar a sua flora, por isso somos confrontados às duas alternativas: ou garantir que persista a cegueira da multidão, ou investigar se não poderíamos ter ambas as coisas, o progresso e as plantas.
A diminuição da flora é devida à combinação de uma agricultura que elimina a vegetação adventícia (clean farming, agricultura limpa) com o pastoreio em terrenos arborizados e com as boas estradas. Cada uma dessas alterações necessárias exige, como é evidente, que se reduzam as superfícies disponíveis para as plantas silvestres, mas nenhuma delas exige que se suprimam as espécies das quintas, das cidades ou dos municípios na sua totalidade, ou sequer com isso beneficia. Há trechos sem utilização em cada quinta, cada estrada, mantenham-se as vacas, as charruas e as ceifeiras de fora desses trechos não utilizados, e toda a flora nativa completa, mais dúzias de interessantes passageiros clandestinos provenientes de terras longínquas, poderiam constituir parte integrante do ambiente normal de cada cidadão.
A supressão de uma subespécie humana é em grande medida indolor -para nós- se for muito pouco o que dela soubermos. Choramos apenas aquilo que conhecemos. O desaparecimento do Silphium do Oeste da circunscrição de Dane não é caso para luto se o conhecermos apenas como um nome num livro de Botânica.
Foi uma benévola providência que suprimiu o sentido da História às milhares de espécies de plantas e animais que se exterminaram umas às outras para construírem o Mundo como hoje o conhecemos. A mesma generosa providência suprime-o agora em nós. Poucos choraram quando o último bisonte desapareceu do Wisconsin, e poucos hão-de chorar quando o último Silphium o seguir para as luxuriantes pradarias da terra do nunca.  “

Aldo Leopold, in “Pensar como uma montanha”*, edições sempre-em-pé, 2008

Aldo Leopold 1887-1948 EUA
Já em criança entusiasta do contacto com a Natureza, no que  foi estimulado pelo pai, Leopold inclinou-se desde cedo para os estudos florestais, tornando em 1935 um dos fundadores da Wilderness Society (Sociedade de Natureza Selvagem). Publica numerosos artigos e alguns livros, entre eles A Sand County Almanac (traduzido em Portugal para “Pensar como uma montanha”) que escreveu com base quer na sua profunda formação científica, quer na sua filosofia e actividade conservacionista. Hoje a sua projecção é imensa, Aldo Leopold é a figura inspiradora de novo fôlego, inaugurando a fase moderna do movimento numa perspectiva claramente ecológica.

*para o título desta 1ªedição em língua portuguesa, Pensar como uma montanha, adoptado por uma expressão do próprio A.Leopold, na qual ele aponta para a necessidade de superar o ponto de vista estreitamente antropocêntrico e de ter sempre em conta o logo e longuíssimo prazo, se se quer evitar a destruição acelerada da Natureza, e da Humanidade com ela.